Comunhão Silenciosa

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Não há como cultivar mindfulness. Impossível treiná-lo, conquistá-lo, tão pouco adquiri-lo. Há como cultivar ser humano. Não ter humano nem fazer humano. Apenas ser.

Mindfulness está pronto. Sendo humano, com tudo o que implica, posso então convidá-lo a revelar-se. O convite é aberto e sem expectativas.

Posso então relaxar o corpo na postura e relaxar a mente no corpo, abrindo meu coração como uma flor, sem esforço, sem querer.

Naturalmente mindfulness chega até mim. Sempre novo, sempre pleno, tecendo o interser da vida cheia de nada, vazia de tudo.

Assim testemunho a infinitude da beleza nas incontáveis formas de inteligência, neste incessante vir-a-ser.

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Nesta última semana esse mistério tão palpável, e ao mesmo tempo tão fluido, chegou até mim em vários momentos durante o módulo iv da formação em estratégias de mindfulness, no mti - mindfulness trainings international. Para mim é uma honra e um privilégio receber os ensinamentos clássicos da atenção plena através do lama Jangchub Sempa Gyatso e sua companheira Verena reid.

 

Na absorção da energia presente, despertando pouco a pouco na experiência. Quem diria? A liberdade está na disciplina. Explorando os paradoxos me rendendo na eternidade do instante que se revela.

Na consciência plena do som emergindo junto com o riso espontâneo da colega, ali, algumas milhares de gramas abaixo, como se toda a história e todo o futuro estivessem aqui. Não há início, meio e fim.

Convivendo em contemplação. Potencial ilimitado.

Oh, Deus. Como é grande nosso potencial! Sinto nos ossos, na carne e na pele. Pele, carne, ossos. O corpo consciente.

O gongo anuncia a troca de postura. Quarenta minutos se passaram. Levantando lentamente, ciente do meu corpo movendo no espaço me apronto e renovo meu convite ao mindfulness, agora para uma caminhada. Uma vontade extasiante de escrever sobre a experiência vibra em meu peito, nos ombros, nos braços e nas mãos. Distração ou criatividade?  A tranquilidade sabe.

Andando na natureza reverenciei o sagrado no caminhar de outro caminhante, e mindfulness continuava a chegar até mim.

Sorrindo, respirando, movendo o corpo no espaço, apoiado por inúmeros seres vivos. Caminhando em sabedoria.

Em uma pausa para abrir os sentidos, um pinheiro ancião, que já se curva em gratidão ao oceano de vida que nos cerca, estende-me a mão. Entregando-lhe a minha mão entre suas pequenas folhas, nosso cumprimento é como uma massagem e uma forma de nos reconhecermos profundamente. Pássaros de várias cores e tamanhos compartilham comida na composteira. A brisa toca meu rosto ao mesmo tempo que o som do sino anuncia o intervalo.

Todo esse momento tão especial me mostra que realmente posso me alimentar disso. Dessa comunhão silenciosa.

Bom, vamos ver se isso é verdade, pois acabo de escrever este relato sem ter ido ao coffee-break, quando outra amável colega sussurra em meu ouvido esquerdo: “A prática agora é sentado, viu.”

PS: Após eu fechar o caderno um colega que esteve presente, para minha "ausência" no coffee, me entregou uns biscoitos gentilmente embalados em um guardanapo. Que bela surpresa! Quando estamos apenas sendo, tudo o que precisamos chega até nós.

 
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