9 mitos comuns sobre mindfulness em organizações

 
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Ao introduzir a atenção plena aos colaboradores e interessados, você provavelmente precisará abordar alguns dos mitos em torno do que pode ser visto como uma abordagem aparentemente "de esquerda" para desenvolvimento pessoal e organizacional e oferecer uma história diferente, que se adapte mais prontamente dentro do contexto do local de trabalho.

Mito Um: A atenção plena é "religião (especificamente o budismo) disfarçada".

Mindfulness é a nossa capacidade inata de perceber, no momento presente, tudo o que estamos experimentando com uma atitude aberta e curiosa. É uma capacidade humana básica que pode ser desenvolvido com treinamento, através da prática e da paciência. Embora não seja propriedade de nenhum grupo filosófico ou religioso, o cultivo de mindfulness pode ser encontrado em muitas tradições contemplativas, e a abordagem mais abrangente é encontrada nos ensinamentos budistas. No entanto, no contexto do local de trabalho, a prática da atenção plena é uma forma de treinamento mental que é inteiramente secular e não requer compromisso com uma tradição espiritual.

Mito Dois: Mindfulness e meditação são a mesma coisa.

Se a atenção plena é uma maneira particular de prestar atenção que nos permite estar presente com a nossa experiência, assim como é, então a meditação é uma maneira de nos familiarizarmos com este tipo de consciência e depois cultivá-la ainda mais. Em outras palavras, mindfulness é um modo de ser e estar no mundo, enquanto a meditação é uma técnica que desenvolve este modo.

Existem diferentes tipos de meditação que fazem coisas diferentes, bem como existem diferentes máquinas de exercício em um ginásio que desenvolvem diferentes músculos. As 'meditações' guiadas que fazem parte de um curso de mindfulness são essencialmente exercícios concebidos para desenvolver uma atitude atenta, aberta, curiosa e solidária em relação à nossa experiência e à dos que convivem conosco.

Mito Três: Mindfulness é sobre ser capaz de esvaziar sua mente.

Praticar mindfulness não é sobre parar pensamentos ou emoções. Esta forma de treinamento mental é sobre tornar-se mais consciente dos padrões únicos de sua mente, e isso inclui a natureza dos seus pensamentos. Com prática sustentada e disciplinada, podemos desenvolver nossa capacidade de notar o que atrai nossa atenção para longe da tarefa, seja essa tarefa um exercício de atenção plena ou uma atividade de rotina no local de trabalho. Reconhecendo a distração e voltando ao objeto desejado de nossa consciência, fortalecemos nossa capacidade de permanecermos focados e aprendemos sobre nossos hábitos e padrões relacionados à distração.

Mito Quatro: O objetivo da atenção plena é tornar-se relaxado e “de boa na lagoa”.

No local de trabalho, uma das principais intenções do treinamento da atenção plena é melhorar a autoconsciência, o que aumenta sua capacidade de gerenciar a si mesmo. Isso, por sua vez, nos ajuda a melhorar o nosso bem-estar, para que possamos fazer melhor o nosso trabalho, ou talvez fazer escolhas de carreira mais inteligentes.
O relaxamento pode ser um subproduto bem-vindo, mas não deve ser considerado o objetivo. Na verdade, a prática da atenção plena convida a nos voltarmos para a experiência como ela é, mesmo que seja desconfortável ou desagradável. Tornando-nos cientes de qualquer dificuldade com cuidado e curiosidade, damos a nós mesmos a oportunidade de aprender com isso e desenvolver maneiras mais habilidosas de responder.

Mito Cinco: Mindfulness é apenas prestar atenção à respiração.

É um equívoco comum (provavelmente evocado por imagens de pessoas com os olhos fechados e sentado de pernas cruzadas na posição de lótus) que a atenção plena é sobre entrar em um estado relaxado simplesmente respirando mais devagar e profundamente. Embora existam tipos de respiração controlada projetados para acalmar um sistema nervoso agitado, na prática de mindfulness a respiração é mais frequentemente usada como uma âncora para que possamos notar quando nossa mente vagou, e gentilmente redirecionar o foco de volta para onde queremos que esteja. Além da respiração, nossa âncora pode ser qualquer objeto, interno ou externo, dependendo da finalidade da prática.

Mito Seis: O treinamento da atenção plena é bom para todos e ajuda com tudo.

Embora seja verdade que as aplicações clínicas do treinamento de mindfulness tenham se mostrado eficaz em populações amplas, particularmente para ansiedade e depressão, também é claro em pesquisas que as intervenções funcionam melhor para alguns grupos do que outros e que existem situações nas quais o treinamento não é apropriado. Além disso, a maioria das pesquisas sobre mindfulness fora do contexto clínico de saúde ainda é muito incipiente - pequenas amostragens e falta de condições rigorosas de controle demonstram que mais trabalho precisa ser feito antes de podermos ter certeza de que o treinamento da atenção plena é eficaz da maneira que promete ser. Alguns críticos descreveram os cursos de mindfulness no local de trabalho como representando "McMindfulness" porque estas intervenções geralmente envolvem práticas mais curtas e podem tender a ser rasas, como redução de estresse a curto prazo, em vez do potencial profundamente transformador da prática. Intervenções de atenção plena na extremidade mais leve do espectro podem não fornecer muitos dos benefícios que são conferidos pelo treinamento em profundidade.

Mito Sete: "A atenção plena é perigosa".

A consciência plena, como capacidade humana natural, não é perigosa. Pesquisadores associam nossos níveis de "traço" de mindfulness com características desejáveis, como a resiliência ao estresse psicológico e qualidade de tomada de decisão, mesmo que nunca tenhamos ouvido a palavra antes. Contudo, alguns métodos para cultivar níveis maiores de atenção plena podem não ser apropriados à algumas pessoas ou em alguns momentos e há evidências de que em casos raros as pessoas podem encontrar dificuldades significativas. A maioria desses relatos de experiências negativas parecem ser associados à prática silenciosa prolongada em retiros residenciais, e uma recente meta-análise de Terapia Cognitiva Baseada em Atenção Plena não encontraram evidências de eventos adversos associados com essa forma menos intensa de treinamento. No entanto, alguns indivíduos podem achar que ir em direção à uma "experiência difícil”, mesmo através de uma breve prática de mindfulness, não seja apropriada para eles.
A pré-avaliação dos cursos de mindfulness por professores qualificados deve identificar esses indivíduos para quem o treinamento pode não ser adequado, como aqueles que provavelmente tenham experimentando Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Todos os empregadores têm o dever de cuidar dos seus funcionários e na implementação da atenção plena, como tal, deve assegurar que os facilitadores internos ou parceiros externos devem ser devidamente treinados.

Mito oito: A atenção plena gera funcionários passivos e não leva a mudanças em culturas organizacionais “tóxicas”.

Uma das principais críticas à implementação de cursos de mindfulness no local de trabalho é que ela não muda as práticas “pobres” de líderes “tóxicos” ou culturas organizacionais, mas pode ser aplicado como um "esparadrapo". Embora seja cedo em termos de uma base de evidências, algumas pesquisas mostrou que implementar a atenção plena, juntamente com o coaching, faz a diferença no comportamento da liderança, ajudando os gestores a agir com maior inteligência emocional, compaixão e responsabilidade social.
Ao observar alguém agindo “mindfully” isso pode parecer um estado passivo, mas é exatamente o oposto. Ao desenvolver nossa percepção momento a momento, estamos "acordando à nossa experiência”; percebendo nossas reações e usando essa consciência para desenvolver maneiras mais sábias de responder. Existem muitos relatos de funcionários que se afastam de  ambientes de trabalho tóxicos, ou partem para outros objetivos e aspirações de carreira, como resultado de que recebeu treinamento de atenção plena. Isso representa um risco para qualquer organização interessada em fornecer treinamento para mitigar o estresse endêmico que, de outra forma, não é abordado. Empregados que permanecem, "estão em empregos nos quais querem estar, e provavelmente mais engajados".

Mito 9: A atenção plena está sendo puramente explorada pelas empresas para fins capitalistas

Uma das preocupações centrais com a transições de mindfulness para o local de trabalho é que os programas estão sendo implementados para “extrair mais do já sobrecarregado trabalhador”. Tais críticos raramente são informadas sobre o que está acontecendo nas organizações ou por aqueles quem organiza ou participa de programas de mindfulness. Seria ingênuo ignorar o fato de que os empregadores querem administrar negócios lucrativos, mas as evidências mostram que complementar as boas práticas comerciais com programas de bem-estar que apoiam a boa saúde, sendo eticamente sólidos e fazendo negócios com bom senso, não são práticas excludentes. No entanto, é essencial que haja uma compreensão mais ampla do que constitui um treinamento em mindfulness de qualidade e qualificação de professores, se mindfulness for para  melhorar a vida profissional e ajudar a criar organizações "adequadas para abrigar o espírito humano".


Traduzido e adaptado de themindfulnessinitiative.org.uk/building-the-case sob licença CC.